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Cinema como deslumbramento. Ainda não falo sobre mim em terceira pessoa, graças a deus.

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Últimas opiniões enviadas

  • Vitor

    Considero este filme um erro terrível. Não enquanto produção, fotografia, técnica: irretocáveis (e daí minha nota). Eticamente. O efeito colateral da declaração de amor de Cuarón é a justificação da condição daquela mulher que ele tenta homenagear, e do comportamento daqueles que condicionam sua forma de vida. Se, no cinema brasileiro, o esforço tem sido o de desnaturalizar a cordialidade que rege as relações patronais (Temporada, Domingo, Que Horas ela Volta, O Som ao Redor, Açúcar, Vazante), em Roma parece acontecer um movimento oposto: o de observar que o afeto tecido em ordem pode ter um lugar redentor, "civilizador", compensador. Pois, depois de tudo que se passa, depois das perdas, das dores e das violências, Cleo recebe alguma espécie de afeto da família para a qual trabalha, e... continua a trabalhar como antes. Ainda que a contradição desta condição seja apontada - e só apontada, sugerida -, parece haver uma espécie de mensagem liberaloide de superação e persistência que se sobressai, sem que respingue uma gotinha de culpa sequer nos causadores de todo o processo de violência e perda ao qual Cleo é submetida. O resultado é um filme simplesmente "bonito" e "delicado". Eu não sei vocês, mas não é todo pacto pela beleza que eu quero topar. Que Cuarón um dia encontre substância para seus ótimos planos-sequência, enfim.

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  • Vitor

    Temporada é um filme político. No sentido forte do termo. Suas escolhas de personagens, de representação, de conflitos, de imagens fazem com que seja, acima de tudo, um filme político. Explico.

    A política é algo que se impõe como um movimento na ordem vigente, uma reordenação na posição dos objetos, daquilo que seria o "normal": algo político é algo que propõe que se repense e se redimensione aquilo que aceitamos com naturalidade, cria um desarranjo, um estranhamento, mesmo um desconforto, uma deformação no normal. Algo político evidencia uma mudez ou uma cegueira que, até então, passa despercebida na ordem do dia. Cria, então, uma baliza incontornável. Neste sentido, Temporada é um marco no cinema nacional.

    Mais que propor uma crítica social, pois, o filme de André Novais propõe uma crítica formal e estética a partir de sua escolha de imagens, de personagens, de diálogo. O que temos em cena é a vida de personagens que, como na música do Passo Torto, vivem num bairro que não é "igual ao bairro de nenhuma história". Suas vidas são aquelas que, em geral, não são narradas, não são tratadas com interesse ou curiosidade, são despossuídas de sentido a ser preenchido, que não encontram na literatura, no cinema, nas artes plásticas local para elaboração de uma reflexividade. As condições para que se conte a vida desta classe social (longe de ser uma classe média, Angelo Antonio) sempre se baseiam na existência de algum acontecimento épico ou sobrenatural, de algum pano para elaboração de uma crítica sociológica. Sempre a custo da subjetividade de quem está ali sendo representado.

    Em Temporada, nada de "extraordinário" ocorre. Vemos o dia-a-dia de agentes de controle sanitário que andam de ônibus, que pedem dinheiro emprestado, que tomam cerveja às sextas. Como 90% da população brasileira. Não vemos corpos moldados para a representação, não temos belas cenas de amor, sequer paisagens deslumbrantes. Mesmo a escolha por espaços - não a capital BH, mas a periférica e cinzenta Contagem - e por corpos representados - corpos negros, corpos "mal-trajados", corpos "fora da forma ideal" - traz em si algo de contestação, algo de incômodo que faz com que, necessariamente, repensemos: como foi que chegamos até aqui escondendo este tipo de individualidade? Desconsiderando estes indivíduos que se parecem tanto conosco? (O questionamento é marca definitiva de como Temporada é politicamente bem-sucedido).

    Neste contexto, a história de ressubjetivação de Juliana ganha fundo e sentido, ganha força de realidade e identificação.

    Comentário contando partes do filme. Mostrar.

    Abandonada por seu marido no momento de mudança de cidade e de emprego, vemos uma mulher inicialmente marcada pela dúvida e pela incerteza sobre seu destino, sobre a situação de seu casamento. É só partir da conscientização da perda (que é dupla, do filho e do marido), a partir do momento em que uma resposta passa a ser algo desinteressante, porque não mais redime o passado, é que temos então a visão do processo de reconstrução desta personagem. É no mergulho - nosso e dela - com seu novo núcleo de convivência, de pessoas simples em situações que cotidianas, que entendemos a potência de fato desta obra. Os sujeitos interagem, constroem e reconstroem sua personalidade, sua individualidade, sua identidade todos os dias, sem a necessidade de grandes eventos que as redefinam. O que para um pode ser o banal, para outro é essencial; o que para um pode ser mero aterro sanitário, para outro é lugar de reflexão, onde se "observa a paisagem".

    A grande mensagem de Temporada, portanto, é essa: toda subjetividade vale a pena. Isto significa, em outras palavras: todo ser é um ser político, e o apagamento de determinado grupo de seres do campo da representação é também um ato político (talvez aquele que tenha tido consequências mais graves ao longo de toda a formação de nosso país). A verdade é que Safatle tem razão: enquanto estas pessoas, estes corpos, estes lugares e estas vidas estiverem descartados a priori das possibilidades de representação - sem que seja necessário se criar um olhar exótico, caricatural, ou mistificador para isso -, não se produzirá mudança nenhuma na forma como os indivíduos enxergam a si próprios, se mantendo sempre à margem dos processos políticos, históricos, estéticos e sociais. Temporada é, portanto, um passo no sentido de algo diferente.

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  • Vitor

    A série apresenta um bom manejo da linguagem do entretenimento que a Netflix pisa e repisa ano após ano (com sucesso), funcionando assim ao que pretende ser (daí minha nota): um produto regular. No entanto, confesso que larguei La Casa de Papel no meio desta temporada, e acho que três cenas "menores" da série podem perfeitamente explicar o porquê.

    A primeira, e principal delas, diz respeito à condição imposta pela inspetora a um dos informantes, que dividia a cela com o personagem Berlim. Esta condição, mantida em suspenso até sua revelação no final da sequência, é sobre a obrigatoriedade do informante aceitar submeter-se a um processo de castração química. A cena é construída de modo a que esta condição surja como momento de gozo compartilhado entre a personagem que detém a empatia do espectador (Raquel) e o próprio espectador, o que reafirma a intenção da direção em colocar este método numa chave indiscutivelmente positiva. A naturalização de um procedimento como este, como se sua aplicabilidade e eficácia tivessem sido amplamente comprovadas, me pareceu, no mínimo, irresponsável (para não dizem mal-intencionada) por parte tanto de roteiro, quanto de direção.

    A segunda, e mais absurda delas, é a sequência em que Denver faz um longo discurso para a refém Mónica acerca do suposto erro que seria tomar uma pílula abortiva, utilizando uma narrativa emocionada (e emocionante) sobre sua própria vida para justificar sua intervenção. Novamente, a série me parece cair em um erro idêntico ao anterior: apresentar conteúdo polêmico e discutível com naturalidade e irresponsabilidade, utilizando a empatia do público com os personagens para passar uma série de valores conservadores "debaixo dos panos".

    A terceira, e mais comum delas, se dá na sequência de Tóquio e Alisson Parker no banheiro, e creio que essa carece de explicação, pois me digam: qual a função que o beijo entre as duas têm para a narrativa, para a construção das personagens ou para a aquela cena? E qual terá sido a intenção da direção em inserir algo assim no meio da narrativa? Isso eu deixo pra vocês responderem.

    Em suma, a verdade é que, em paralelo a toda a ~desconstrução que a Netflix apresenta em seus perfis, o conteúdo de seus produtos ainda é, majoritariamente, conservador, tanto em linguagem (o que nem entra em conta nesta crítica) como em valores (o que denuncia o que de fato permanece dos produtos mais populares da plataforma). É bom ficar de olho.

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  • Z. Kapywära
    Z. Kapywära

    super aceito :)

  • Carol
    Carol

    está aceito, vitor! adorei teu gosto, pelo visto curtiu l'une chante, l'autre pas da varda também hahahaha

  • M. Filho
    M. Filho

    Olá! O que achaste do Poesía sin Fin? Li uma crítica pesada sobre ele esses dias, queria uma outra opinião. (:

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